quarta-feira, 9 de maio de 2012

SECA NO CEARÁ


SECA NO CEARÁ (TAUÁ)

CANÇÃO DO RETIRANTE

Adeus, choupana querida,
Que deixei longe, deserta,
À margem da estrada erguida
Toda de palha coberta.

Trago dor no coração,
Onde geme a nostalgia
-Lembranças do meu sertão
Não me deixam noite e dia.

Noite e dia não me deixa
Esta tristeza cruel
E eu solto, assim, minha queixa
Cheia de pranto e de fel.

Minha alma, outrora risonha,
Hoje vive soluçando,
Toda paisagem tristonha
Da minha terra lembrando.

A mata seca, sem flores,
Deserta dos passarinhos,
Que dantes seus amores
Cantavam lá, junto aos ninhos.

Seca de todo a corrente
Que ligeira e cristalina
Se estirava docemente
Entre jacarés, na campina.

Borboletas, pirilampos
Tudo passou, dura sorte!
Paira, agora, sobre os campos
A ave sinistra da morte.

Muita sede e muita fome
Sofri sem dó, sem piedade;
A dor meu corpo consome
Sinto oprimir-me de saudade.

E vou sozinho marchando,
Triste! Sem rumo e sem lar
Ando a vida procurando
Nem sei si a posso encontrar.


Antonio de Castro. Revista A Estrella.
Aracati – CE, 28/10/1915.

TAUÁ - RIO TRICI - INVERNO DE 2004
 
 


terça-feira, 8 de maio de 2012

A MULHER NA FAMÍLIA (POR FRANCISCA CLOTILDE)

É no lar, santuário íntimo de seus mais puros afetos que a mulher deve ostentar verdadeiramente a bondade a ternura de seu coração, tornando-se o anjo da guarda do esposo e dos filhos e lhes inspirando o bem e a virtude.

A natureza dando à mulher uma constituição fraca e um temperamento nervoso não a destinou à vida da luta, no seio da sociedade, entregue às agitações e ao afã dos negócios; reservou-a como uma relíquia mimosa para a família, para aformosear este pequeno mundo intimo, onde ela tem de exercer sua benfazeja influência no tríplice papel de filha, esposa e mãe.

Com efeito, se ela ultrapassando o limite que lhe foi traçado por mãe sábia e previdente atirar-se ao torvelinho do mundo, entregando-se á vida tumultuária que compete ao homem, gastará as forças e cairá extenuada sob o peso da difícil tarefa que empreendera, sem ter realizado o ideal que aspirara e conhecendo talvez muito tarde que não era este o seu papel.

flores que se desenvolvem na liberdade do campo; há outras, porém, que apenas nos limites de um jardim e cultivadas por mão hábil podem crescer e desabrochar.

A mulher assemelha-se a essas últimas flores, e no recinto da família, cercada dos cuidados dos entes que a idolatram, e por sua vez enchendo-os de desvelos e solicitude é que pode mostrar a exuberância de seu coração e a beleza de sua alma.

Houve, porém, mulheres que se imortalizaram por feitos gloriosos e que a história nos apresenta como verdadeiras heroínas.

Desde os mais remotos tempos, quando a humanidade no embrião da civilização lutava ainda com as trevas do obscurantismo, a mulher surgiu iluminada por um esplendor divino patenteando o poder e a força irresistível de sua fraqueza.

Todos os vultos femininos que admirarmos na história antiga podem ombrear com as heroínas da idade média e com as mulheres célebres da nossa época, nas quais a civilização imprimiu um beijo de luz.

Se Judith embebeu na garganta do opressor dos judeus o punhal homicida, Roland emaranhou-se na política para destronizar um rei pusilânime e aclarar a Franca com o sol da liberdade, e servindo-se do gládio de sua pena inspirada com ela acutilou o despotismo e a tirania.
Seria longo repetir os nomes dessas mulheres que se imortalizaram, mas não teremos entre nós outras heroínas iguais a essas que arrastadas pela força do gênio se atiraram na arena da luta por amor de uma idéia, ou pelo fanatismo de uma causa?
Sem sair da doce obscuridade do lar não poderá certamente a mulher figurar na história, ao lado do homem como o protótipo do virtudes cívicas; porém que melhor celebridade para ela do que reviver eternamente no coração de seus filhos, adorada, reverenciada como um modelo de virtudes e boas qualidades?

Que melhor glória do que educar futuros cidadãos que saibam honrar a pátria e engrandecê-la com o mérito que sempre resulta das boas ações?

Na família é a mulher a companheira do homem, a educadora dos filhos.

Portanto não deve esquecer nunca que dela dependem a felicidade e o futuro das tenras criaturas que nela se revêem como em um espelho que deve refletir as mais belas e puras imagens; que lhe cumpre velar incessantemente para desenvolver o bem naqueles corações ingênuos e inexperientes, procurando todos os meios para depositar neles o gérmen que deverá produzir no decurso da vida bons e salutares frutos.

Uma mãe na alma dos filhos com uma perspicácia, verdadeiramente admirável. Uma língua que balbucia, uma face que cora, um olhar que se perturba são para ela indícios de uma má ação que é preciso conhecer e cuja repetição deve ser evitada para que não traga serias conseqüências.

Então, com a doçura que ela possui, com essa previdência quase divina, segue os passos vacilantes do filho e cercando-o de uma prudente vigilância consegue desviá-lo do mal.

O menino molda-se à sua vontade, à sua influência, e guiado pelo amor solícito e desvelado que ela lhe dedica cresce nas melhores disposições, e tornando-se homem, se encontra na esposa a mesma ternura prossegue na senda do bem, da qual o poderão afastar o turbilhão de paixões desencadeadas e furiosas.

Ele pode resvalar uma vez, mas é sustido à borda do abismo por uma angélica e carinhosa mão. Retrocede, e vai buscar no asilo que abandonou um instante o esquecimento de sua loucura.

A mulher digna de sua nobre missão transforma o lar em um paraíso e consegue com um sorriso desviar dele todas as aflições, desterrar todas as tristezas.

Com uma acenada economia mantém o equilíbrio dos negócios domésticos, e coloca as despesas ao nível dos meios de que o marido pode dispor.

Desdenha os ornatos frívolos, e faz das boas maneiras e das graças que dá a educação a par da amabilidade, o seu principal adorno.

Encarrega-se de instruir o espírito dos filhos, e para isso deve possuir uma boa soma de conhecimentos úteis e uma instrução aprimorada.

Nos agradáveis serões familiares entretém com os dotes de sua inteligência o prazer e a união, evitando assim que o marido e os filhos vão procurar freqüentemente em outra parte as distrações que podem ter ao lado dela, e em um delicioso aconchego solidifica o edifício de sua felicidade, e estreita cada vez mais os laços formados pelo sangue e pelo amor.

Não quero dizer com isto que ela se abstenha de freqüentar a sociedade e que se encerre em casa, o que seria monótono e fastidioso.

Deve pelo contrário cultivar boas relações, tendo, porém, o máximo cuidado em escolhê-las, porque assim como uma amiga sincera é um tesouro de raro valor, também uma amiga fingida é uma serpente que mais cedo ou mais tarde inocula o veneno de sua alma naqueles com quem convive.

A boa esposa auxilia em todas as ocasiões com prudentes conselhos o companheiro de sua vida, e nunca o inibe de tornar-se útil á sociedade e a seus semelhantes por um exagerado egoísmo e um excessivo afeto mal entendido.

É ela a primeira a dizer-lhe o que deve fazer, e tornar fácil o que lhe parecia difícil, a compartilhar as decepções e prazeres que lhe sobrevenham nas alternativas da vida, sendo sempre a amiga desvelada e carinhosa pronta a derramar gota a gota o amor que se alberga no seu coração sobre a existência daquele a quem ligou a sua.

Não será mil vezes mais glorioso desempenhá-lo e fazer da criança um homem útil à pátria e à família do que sentar-se nos bancos de academias em busca de um pergaminho, ou acompanhar os vaivéns da política, duende fatal que deve amedrontar até os animais varonis?

Não será mais proveitoso para a mulher entreter-se horas e horas a cuidar das lides domésticas e a velar pelo bem estar da família do que entregar-se ao desempenho de cargos públicos, nos quais gasta a saúde e aniquila o espírito?

Longe vai felizmente a era obscura em que ela agrilhoada ao mais cruel preconceito e sob o jugo de uma lei bárbara era uma escrava, um simples objeto de luxo para o homem.

Hoje existe por si mesma, conhece seus deveres, pode dispor de luzes suficientes para não se perder na noite da ignorância, e fazendo do lar o seu mundo, concentrando na família as suas mais caras aspirações viverá feliz e fará a felicidade dos outros.

Educai, pois, a mulher, ajuntai aos dotes naturais que a embelezam os encantos de um espírito cultivado, avigorai-lhe os bons sentimentos, tornai-a enfim digna de educar os filhos e prepará-los para a vida completa, e ela será um diamante de inexcedível valor, a lâmpada maravilhosa a espargir luz em torno do lar, a fonte de onde dimanarão a prosperidade e a ventura de família.

F. Clotilde. Revista A Quinzena, n. 5 e 6. Fortaleza, 15 de março de 1887 e  30 de março 1887, p. 40 e 47-48.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A SAUDADE DE UM ANJO (CONTO DE FRANCISCA CLOTILDE)



Apenas os lábios maternais contraídos por uma dor enorme pousaram o último beijo nas pálpebras arroxeadas de Lili, sua alma inocente e pura voou para o céu.
Uma nuvem dourada pelos raios do sol que acabava de nascer por trás da colina, num dia de estio brilhante e formoso transportou-a do mundo à pátria dos anjos.
E Lili pensou que sonhava ao ver-se naquela mansão de delícias, inundado por uma luz que quase lhe deslumbrava os olhos, respirando perfumes misteriosos e de uma suavidade tal que pareciam se evolar de um imenso vergel de rosas e jasmins.
Os querubins vieram recebê-lo contando hinos festivais. Tinham asas deslumbrantes e roupagens de finíssima gaze e eram todos tão lindos que Lili quedou-se a contemplá-los em verdadeiro êxtase.
Uns tangiam áureos bandolins, outros tiravam das harpas sons harmoniosos, outros enfim dedilhavam instrumentos desconhecidos com uma gentileza encantadora.
A entrada de Lili no céu era uma festa.
Os anjos levaram-no em triunfo para as moradas paradisíacas.
Atravessaram paragens luminosas onde o ar estava impregnado do aroma de incenso e mirra.
Por todos os lados brilhavam flores as mais belas e que em nada se assemelhavam às dos jardins terrenos.
Lili procurava recordar-se do que lhe havia acontecido.
Lembrava-se que estivera muito doente,  que sua mãe não se afastara um só instante de junto de seu pequeno leito, que lhe vira sempre nos olhos vestígios de pranto, que ela o beijara repetidas vezes com  muito carinho.
Tinha sentido um peso estranho na cabeça, um entorpecimento em todo o corpo. Um frio glacial se apoderara dele, sentira vontade de dormir e fechara os olhos.
Depois... Não se lembrava de mais nada.
Por isso figurava-se-lhe sonho tudo o que estava vendo. Achava-se muito à vontade entre aquela legião de anjos risonhos e carinhosos, era tão bonito tudo o que o rodeava que ele não desejava acordar.
Transformara-se em querubim. Tinha asas transparentes como os raios de uma estrela e um diadema de esplêndidos diamantes ornava-lhe a fronte.
Tornara-se leve como uma borboleta e voava inebriado de felicidade a par de seus amiguinhos por entre o exército de bem aventurados e virgens cercadas de esplendor divinal.
Aproximaram-se de um trono iluminado por um fulgor ainda mais belo e intenso.
Os perfumes tornavam-se mais embriagantes, os cantos mais ungidos de amor junto do sólio majestoso do santo dos santos.
Lili ante aquele espetáculo surpreendente e sublime compreendeu o que acontecia. Estava no céu.
Aquela deleitável habitação era o paraíso. Sua mãe falara-lhe tantas vezes.
-           Se fores bom e obediente, meu filho, diria-lhe ela, Deus gostará de ti e  te reservará um lugar junto de seu trono.
Realizara-se a promessa; ele estava perto do trono de Deus.
Mas então tinha morrido sem sentir dor alguma. A doença lhe havia minado pouco a pouco a existência e ele se finara como flor a que falta seiva e orvalho.
Como era bom morrer pequenino!
No céu só havia risos, músicas e perfumes; nem um rosto triste,    nem    uma sombra de dor.
Deus beijava as frontes dos seus anjos com ternura do pai e a Virgem alisava-lhes os louros cabelos, envolvendo-os em carinhos verdadeiramente maternais.
O mundo era tão feio e triste!
Pequenino como era Lili não compreendera suas misérias e sofrimento; mas vira muita lágrima nos olhos dos pobres que estendiam a mão pedindo com que matar a fome. Crianças de sua idade andavam quase nuas e descalças através das ruas nos longos dias de inverno expostos à chuva e à lama.
No céu, porém, eram todos formosos como um riso d’alvorada, trajavam riquíssimas galas, não havia ricos nem pobres, todos sentiam o mesmo prazer e tinham direito à mesma felicidade.
Mas no meio daquele viver inexprimível daqueles gozos sem mácula que transportavam as almas eleitas em um rapto de íntima adoração aos pés de Deus, entre aqueles cânticos que deliciavam os ouvidos e aqueles aromas que se espargiam cada vez mais suaves, cercado da infinidade de querubins e serafins que acompanhavam o séqüito imponente das virgens e dos justos Lili teve saudades do mundo.
Lembrou-se de sua mãe que lhe queria tanto e que devia estar inconsolável pela sua morte.
Teve sede de seus beijos, de seus afetos, de todas aquelas carícias com as quais ela o festejava quando abria os olhos todas as manhãs.
O céu com todos os anjos, arcanjos, virgens, santas e mártires não valia um só dos afagos dela.
E Lili sentiu uma saudade profunda. Trocaria tudo aquilo que ainda há pouco o extasiava por alguns dias mais passados junto de sua mãe.
Deus viu o que se passava na alma do pequeno querubim e se apiedou de sua tristeza.
A mesma nuvem dourada envolveu-o como uma rede de luz e opala, e em breve foram desaparecendo a seus olhos todas as belezas e esplendores da mansão bem aventurada.
Lili viu-se no seu leito e sentiu nos lábios a doçura de um beijo de sua mãe, ao mesmo tempo que um alegre raio de sol vinha brincar-lhe no rosto.
JANE DAVY (Pseudônimo de F. Clotilde), Cf. A QUINZENA, 23 de fevereiro de 1888.
 

A JANGADA E O JANGADEIRO POR FRANCISCA CLOTILDE

FRANCISCA CLOTILDE

A JANGADA

Em face do mar, contemplando a jangada que desliza garbosa sobre a esteira azulada das águas, volve-se o meu espírito para a gloriosa campanha do abolicionismo na terra que amo com estranhado desvelo.

Relembro a quadra feliz em que o ideal da liberdade dominava todos os espíritos, fazendo as lagrimas dos captivos transformarem-se em sorrisos de esperança.

Quando o heróico jangadeiro bradou com sua linguagem rude e sublime: - Aqui não se embarca mais um escravo! - fechado assim o porto a um dos mais vis comércios que podiam ser realizados entre gente civilizada, um fremito de entusiasmo agitou aqueles que pugnaram pela causa santa e novos horizontes se dilataram para os miseros filhos da raça precita. Era o arranco generoso de um coração livre que repercutira em muitos outros, limpando da superficie dos verdes mares a mancha que neles deixara a passagem dos navios negreiros.

Que festas deslumbrantes não comemoram o magno acontecimento! As emoções tolhiam o verbo potente do Dr. Almino e as suas frases de fogo crystalizaram-se em lágrimas de júbilo como os que numa explosão de entusiasmo lhe correram ao longo das faces a 24 de Maio no palacete da Assembléia, onde em uma apoteose de sorrisos e de flôres se glorificava a Fortaleza pela abolição de seus escravos.

Aquelas noites hibernais tinham luares de alegria, reverbéreos de patriotismo que deslumbravam, quando o prestito libertador percorria as ruas, ostentando-se nas mãos de nossas gentis patricias, os símbolos dos municipios que já haviam recebido o beijo da aura civilizadora.

Assim, todas as vezes que sobre o dorso agitado dos mares vejo passar a jangadinha veleira, repassando os episódios da mais bella das campanhas, tenho ufania de ser cearense e sinto desejos de proclamar aos quatro ventos as glorias imorredouras de minha terra.

F. Clotilde. Outubro - 07. Biblioteca Pública, RC 372.4, A 615 - 1908 - p 365 – 367.

O JANGADEIRO

Indômita coragem brilhava no olhar do rude jangadeiro que, postado junto à praia, ouvia o marulhar das ondas, contemplando o horizonte que se estendia limpido, apresentando naquela tarde o azul esmaecido dos dias hiemais
.
A jangadinha veleira balouçava-se nas vagas parecendo adornar a caricia forte do oceano e mais longe o navio aguardava os passageiros que demandavam as plagas do Sul.

Uma leva de escravos, escoltada pelo sinistro mercador de carne humana, aproximava-se tristemente.

Braços unidos, corações despedaçados,  os míseros envolviam um último olhar para os areias  alvejantes da terra da pátria que iam deixar para sempre.  Lágrimas profusas brilhavam naqueles rostos onde a fatalidade estampara desde o berço o ferrete da maldição de Cham.

O que os esperava nas paragens do Sul?  O engenho, o trabalho forçado, a tarimba, a minguada ração, o azorrague do feitor cruel, o opróbrio, a miséria enfim!

Ali a escravidão ainda era mais negra!...

E se aproximavam os míseros da praia, enquanto o marulho das ondas quebrava a monotonia da tarde que passava.

O filho do mar compreendeu a extensão daquela dôr que extravasava em prantos; olhou a casaria branca de Fortaleza sombreada de coqueiros, iluminada pelos revérberos do sol triunfante que afugentara as névoas hibernais. Um grande sentimento de compaixão ergue-se-lhe noíintimo; a revolta da consciência sobrepujou ao dever de jangadeiro.

Sugestionou aos companheiros a greve mais honrosa que se tem registrado na história da humanidade e o brado vibrante que imortalizou o seu nome suplantou os protestos do negociante negreiro que não queria ser estorvado no seu comercio vantajoso.

Como um clarim apregoando as harmonias da liberdade saiu dos lábios do “Dragão do Mar” o grito humanitário e potente: “Neste porto não se embarca mais um  só escravo!”


F. Clotilde. Folha do Commercio. Fortaleza, 26 de março de 1911.

TAUÁ 250 ANOS DA ENTREGA DO TEMPLO AO CULTO PÚBLICO

TAUÁ  - 250 ANOS DE ENTREGA DA IGREJINHA AO CULTO PÚBLICO

PADROEIRA DE TAUÁ
(Por Joaquim Pimenta)
 
"Era padroeira de Tauá Nossa Senhora do Rosário, imagem muito antiga, de linhas toscas, já desbotada, mas, à distância, à luz profusa das velas de estearina, realçando a beleza e a serena magnitude de uma Virgem da Renascença. Nos dias de festa, passava-lhe o espanador com filial carinho; cingia-lhe o pescoço com um rico rosário de ouro massiço; grudava-lhe com cera, nas orelhas deterioradas, um lindo par de brincos, também de ouro, com pequenos rubis.

Apesar de ter perdido a crença em deuses e santos, quando soube, já professor de Direito, em Recife, que fora destronada de seu pedestal, talvez secular, para cedê-lo a outra de linhas esculturais, mais perfeitas e de tons mais vivos, roçou-me a alma de incréo uma nuvem de tristeza e de saudade pela velha imagem.

De sua côrte faziam parte um Cristo, muito magro, que o tempo tornara cor de âmbar; sangrando numa cruz comum, como deveria ter sido a que a tradição evangélica nos descreve; um São José modesto, na sua beatífica quietude de carpinteiro aposentado; um São Miguel mavortico, com a lança cravada em Lúcifer, vencido aos seus pés; um São Jorge, no seu ginete, o mesmo que cavalgava na Lua quando eu ignorava que o santo guerreiro e o fogoso corcél eram manchas de montanhas desnudas e frias; um S. Braz; uma Santa Rita, etc.

Como os antigos templos sertanejos, era a igreja de Tauá povoada de lendas e visagens, termo dado à aparições de almas do outro mundo ou a fenômenos estranhos do Além. O seu adro servira de cemitério e isto impressionava ainda mais os espíritos crédulos.

Contavam-se coisas de eriçar os cabelos, que se passavam abóbodas. gemidos, prantos, vozes tumulares de almas penadas, rogando missas e responsos, para se poderem safar do Purgatório. Gargalhadas estridentes, gritos histéricos quebrando a paz e o silêncio da noite.
Narravam, assustadas, velhas devotas, histórias que já lhe haviam transmitido as suas avós, e em que, quando menino acreditava piamente.

Apesar do pavor que eu tinha de defuntos e de almas do outro mundo, nunca vi nem ouvi coisa alguma de extraordinário durante os cinco anos em que fui sacristão. Tinha eu de dobrar finados: seis pancadas no sino grosso e três finos, se o defunto fosse homem; seis pancadas no sino fino e três pancadas no grosso se fosse mulher. Gratuitas as primeiras vinte e sete badaladas, fosse o defunto pobre ou rico, as quais eu contava com absoluta honestidade, às demais, pagas por uma taxa insignificante, que só davam resultado quando o cadáver era de família abastada".

PIMENTA. Joaquim. Retalhos do Passado. Rio de Janeiro: Departamento da Imprensa Nacional, 1949, p. 27 e 28.

domingo, 6 de maio de 2012

AURELIANO CAVALCANTE MOTA E AMÉLIA DE CARVALHO MOTA

AURELIANO CAVALCANTE MOTA
E AMÉLIA DE CARVALHO MOTA

FAZENDA TODOS OS SANTOS
MARRUÁS - TAUÁ - CEARÁ - BRASIL

São filhos de Aureliano e Amélia:
Agostinho, casado com Ana Dolores, pais de Leda, viúva de Francisco Nascimento Moura (Independência); José Ailton, casado com Vera Lúcia; Alvino, casado Fca Bezerra Lima Mota; Amélia, casada com Gonçalo Rodrigues de Souza; Aureliano Neto; Francisco; Luzia; Abílio; Zuleide; Antonio Agostinho; Zulene; João Bosco, casado com Francisca Mirtes; Maria do Rosário; Paulo Roberto; Jose Wilames; Ana Volda e Ana Vera. Em Tauá é neto de Agostinho e Dolores, Ronaldo Moura, casado com Telma Pimentel, pais de Shélida, Lívia, Ronaldo Filho e Francisco Nascimento Moura Neto.
Abílio, casado com  e Maria Luzia Silveira tiveram as seguintes filhas: Abilmar; Amélia, Rita e Dagmar.
Maria Alice Nascimento Mota (Nascimento, por ter nascido 25 de dezembro data de Nascimento do Senhor Jesus Cristo), casada com seu primo Abdon, pais de Laudi, casada com Francisco Adonias Cavalcante (irmão de Leda); Zoilo; Antonio Claudionor; Osvaldina; Ananias; Francisco (Seu Chico); Maria Marli; Amélia Maria, casada com Moaci Lima, este filho de Chico Lima e Alice, da fazenda Pinheiro, Marruás.
Ademar, casado com sua prima Fausta, pais de Robson; Izabel; Amélia; Moema; Verônica; Antonio Ademar, Wilson César; Jose Aureliano (Dedé); José Wilame e Tereza Cristina;
Apolônio, casado com sua prima Ananias, pais de Luis (ex-vereador), casado com Luisa Lucena Coriolano Cavalcante, pais de Avelange, Luzia Ananias, Neirelande e Carlos Windson; Luiza, mãe de Solano Alexandrino, Solange, Sinolanda, Sirlânia; Luiz Aureliano, casado com Cleide Just, pais de Juliana, casada com Edmilson Barbosa (pais de Raul); Leonardo e Daniele; Luiza Anélia, casada com Francisco Leitão Lima, pais de Lívia;  Luiza Amélia, casada com  Eudes Feitosa de Lucena, pais de Jéssica, Jeferson e Eveline; Luiza Apolônia; e Luiz Eneas, casado com Sandra Veríssimo, pais de Victor e André .
Maria (Mariquinha), casada com seu primo Adalberto, pais de Francisco (Seu Chico);  Maria Amélia, casada com Ozias Moreira, pais de Marilac, Monalita, Rui Flávio, Adalberto Neto e Gorete; Maria Ilca, casada com Flávio Lopes, pais de Flávio Junior, Luiza Maria, Ronkaly, Ronald, Rodney e Roger; Socorro Maria, casada com Jose Sobreira; Maria Adalmária, casada com Francimar Lobo, pais de Francimar Junior, Adalbermário e Francimária; Maria Jose, casada com Antonio Teixeira, pais de Flúvio, Fleuma e Fabíola; e Maria Gorete.

Izabel (Siá Bela), casada com seu primo Domingos  (Seu Mingo), pais de: Jose Ribamar, casado com Franquinha Cidrão, pais de Kátia, Rita de Cássia, Isabel de Lourdes e Domingos Neto; Vilmar, casado com Maria Jose, pais Wálber, Walberto, Vilmária e Rosebel; Maria Zélia, casada com Deodato Ramalho, pais de Domingos Francisco, Deodato Junior, Isabel Letícia, Jose Carlos, Paulo Roberto, Ana Paula, Lilian e Flavia; Marlene, mãe de Júlio César; Ioneida; Geraldo;  Manoel; Jesus; Leonor; Aureliano Neto e Domingos Filho, casado com Adaltiva Cidrão, pais de Marcos Aurélio, João Paulo, Janaina, Jamile e Maria Isabel.
Ataciso, casado com Luzia (Nenzinha), pais de José Aroldo. Viúvo, Ataciso matrimoniou-se com Nilda e dessa união nasceram: Ataciso Filho (vereador em Tauá), casado com Iracema Lobo; Aureliano Neto; Jorge; Fernando; Jose Cândido; Hélio; Francisco de Assis e Fernando.
Adauto, casado com Ana (Naninha), pais de  Adauto Filho, pai de Dauana, Dante e Diana; Aureliano Jose, casado com Donana, pais do Ítalo Del e Igor Jose; Aris, casado com Fátima Teixeira Mota, pais de Daniel e Danilo; Anamélia, mãe de Edmilson, Ed Wilson, Pérola e Paloma; Antonio, casado com Auristela Bezerra, pais de Lurdiana e Nara; Ana Maria, casada com Jose Arismar Rodrigues, pais de Josiane, Joyce e Jorge Luiz; Adálio; Anairton, casado com a fisiterapeuta Fátima Andrade, pais de Filipe e Ana Paula; e Ayla Maria, casada com Antonio Montenegro Duarte Paraguassu, pais de Jéssica, Átila e Sadi.
Absolon, casado com sua prima Natália, pais de: Francisco Absolon, casado com Iraides, pais de Ladislau, Rosália Maria, Irabson e Francisco Absolon Junior; Rita Maria; Dagmar; Aureliano; Fco Jose (Zé); Rogério; Dário, casado com Greice, pai de Natalinha; Rojânio; Absonália; Liduina e  Francícero.
Alaor, casado com sua prima Edília, pais de: Aureliano, casado com Isa Serra; Alaor Filho, casado em primeiras núpcias com Anatácia Reis e em segundas núpcias com Milena Benevides; Aureamélia, casada com Luiz Cavalcante Dias (ex-vereador); Armando, casado com Gigi Feitosa; Anderson, casado com Amada;  Amilton Jose, casado com Josane; Antonio Agenor, casado Shirley; Audique; Ângela Maria, casada com Afonso Cavalcante Dias; Airles e Aldemir.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

MONSENHOR JOVINIANO BARRETO

MONSENHOR JOVINIANO BARRETO

Nasceu a 5 de maio de 1889, na fazenda Cajazeiras, Município de Tauá, Ceará. Filho de Roberto Barreto e de dona Cristina Gonçalves de Amorim Barreto. Teve como primeira professora a mãe, a seguir, o seminário. Ordenou-se a 21 de dezembro de 1911, aos 22 anos.

Antes de ordenar-se lecionou no Seminário (1908-1909) e no Colégio Diocesano do Crato (1910-1911) Foi vigário de Independência 12 de janeiro de 1912 até 05 de setembro de 1913. Cooperador de Mons. Linhares, em Lavras da Mangabeira, até 15 de janeiro de 1917, Cura da Catedral de Crato de 20 de janeiro de 1917 a 28 de fevereiro de 1919.Secretário do Bispado de Crato de 1º de março de 1919 a março de 1936; Diretor e professor do Colégio São José de Crato, de 1º de janeiro de a 30 de novembro de 1924.

Vice-presidente do Banco do Cariri S/A desde a sua fundação em 1921 até 1950. Reitor do Seminário do Crato de 1º de janeiro de 1922 a 31 de dezembro de 1932; Diretor do Ginásio do Crato em 1933 e 1934. Pároco de Juazeiro do Norte de 26 de março de 1935 a 06 de janeiro de 1950.
Ao ser nomeado Vigário de Juazeiro - “A freguesia mais difícil de curar que o Brasil jamais sonhou possuir”, segundo Prof. J. Teles da Cruz, a família, na caridade para com ele, tremeu: ele não! Aceitou, seguiu, sofreu, suportou tudo, até morrer como morre um Padre bom: na fidelidade do ofício" (Neri Feitosa).

Dia 06 de janeiro de 1950, Monsenhor Joviniano Barreto foi assassinado por Manoel Pedro da Silva, solteiro, de 39 anos. De Juazeiro, o corpo foi levado para o Crato, nos braços do povo. O sepultamento ocorreu às 17 horas do dia 07 de janeiro de 1950, presentes o bispo diocesano, 21 Sacerdotes, 19 seminaristas e Comissões de Milagres, Barbalha, Lavras, Missão Velha e Caririaçu.

O assassinato de Monsenhor Joviniano Barreto abalou a família e a sociedade. O juiz de direito e poeta Carlyle Martins, presta-lhe uma homenagem no soneto:
 
MÁRTIR DO DEVER

(À memória de Monsenhor Joviniano Barreto)

Sacerdote do amor, da Fé e da virtude,
Sua alma era do Bem, sublime relicário
Dirigindo os fiéis, em serena atitude,
Pregava a religião do Mártir calvário.

O destino cruel, que tanto nos ilude,
Reservou-lhe na vida o mais atroz fadário,
Atirando-o, de um modo inesperado e rude,
De encontro à hediondez de um mísero sicário.

De morte sem igual pagou triste tributo,
O pobre Monsenhor! Mas seu nome impoluto
Já cintila no azul, em riscos camafeus!

E, enquanto a terra chora, em ânsias
Ele no Paraíso, entre estrelas e rosas,
Num esplendor de luz, está junto de Deus.

.
Carlyle Martins In: Feitosa, Neri. Monsenhor Joviniano Barreto. Cadernos do Cariri: Série Biografia. Crato, Ceará, 1966.

Nota do Jornal O POVO de 2 de janeiro de 1959, 6ª feira:

“Dia 31 de dezembro de 1958, suicidou-se, na prisão, com três profundas peixeiradas, o tristemente célebre criminoso Manoel Pedro da Silva, que é louco e foi o matador de Monsenhor Joviniano Barreto, vigário da Paróquia de Juazeiro, fato ocorrido em Juazeiro em 1950”.
 
O criminoso Manuel Pedro da Silva era natural do Rio Grande do Norte, na tarde do dia 6 de janeiro de 1950, no momento em que o sacerdote procedia a Benção litúrgica da pedra fundamental do convento dos Franciscanos, naquela cidade. Premeditou o delito, desde a véspera do Natal de 1949, quando foi à igreja, à meia noite, levando oculta sob as vestes, uma faca adquirida naquele mesmo dia. Não consumou naquela noite porque o celebrante foi outro sacerdote e não Monsenhor Joviniano Barreto.
 
O ódio do psicopata ao vigário da Matriz das Dores vinha sendo alimentado desde a alguns anos por motivos de o sacerdote haver-se recusado a celebrar o seu casamento com uma senhora casada.
 
Vale acentuar que essa recusa ao desejo absurdo de Manoel Pedro também foi externada pelo Juiz de Direito dr. Juvêncio Joaquim de Santana.
Em sua esquizofrenia, Manuel Pedro concretizou todo o seu ódio somente sobre a pessoa do sacerdote. Procurou assim eliminá-lo, conseguindo-o, finalmente, de maneira bárbara e traiçoeira”.

Fonte: FEITOSA. Neri. Monsenhor Joviniano Barreto. Cadernos do Cariri: Série Biografia. Crato, Ceará, 1966.