quarta-feira, 7 de março de 2012

A DIVORCIADA - ROMANCE DE FRANCISCA CLOTILDE

A DIVORCIADA

“Os estudos sobre a natureza e a importância do nosso romance são escassos, incompletos, pois permanecem quase sempre em considerações superficiais, sem maior aprofundamento, além das injustiças que se cometem, talvez inconscientemente, em relação a nomes que foram de certa forma, desbravadores de caminhos”.
(Dolor Barreira)
O romance A Divorciada, aborda a questão do divórcio, um tema bastante polêmico, principalmente se retomarmos à época em que foi publicado, o ano de 1902.

Uma mulher de vanguarda, Francisca Clotilde, conhecida na educação como professora da Escola Normal de Fortaleza e na imprensa local e nacional, pelos seus versos e poemas, espalhados em jornais e revistas do estado do Ceará, de outros estados brasileiros e até em outros países: Portugal e França. Também contista, é de sua autoria a brochura "Coleção de Contos", publicado no ano de 1897.

Era o ano de 1902. Francisca Clotilde, professora, abolicionista, jornalista, contista, poeta, dramaturgista, publica o romance A DIVORCIADA, o qual ela dedica a suas diletíssimas amigas Serafina Pontes e Alba Valdez. Dedica ainda a dona Maria Eugênia dos Santos.

O romance é organizado em trinta e sete capítulos, em suas suas duzentas trinta e três páginas, e inicia assim: 
CARTÃO DE VISITA

Não pense o leitor benévolo que vai ter diante dos olhos um romance de cenas aparatosas, cheio de peripécias emocionantes e de lances extraordinários.

É uma história singela de duas criaturas que se amaram com pureza, e as quais o destino torturou acerbadamente antes de dar-lhes a felicidade almejada.

A maior parte da ação desenrola-se no campo, num pequenino povoado, em plena existência matuta, por entre a harmonia dos ninhos, traduzida pelos gorjeios das aves festivas.

Trescala a narração o aroma das flores agrestes, é um inocente idílio que pode ser compreendido por olhar casto.

Não está filiado a escola alguma dos Mestres; e seus personagens existem, e a cor verdadeira que apresentam é o mérito único da obra extremamente singela.

Revelam os inúmeros defeitos, a simplicidade rústica da forma, a pobreza de colorido, devido talvez ao meio excessivamente burguês em que se deslizou a vida da – Divorciada.

A autora

Segundo Dolor Barreira, A República,  edição de 08 de abril de 1902, foi o primeiro órgão a divulgar a obra “A Divorciada” com “estas animadoras palavras”,

Temos sobre a nossa banca de trabalhos esse novo livro da apreciada escritora cearense, demonstração irrecusável de uma insistente e perseverante atividade intelectual.
O talento da autora, promissoriamente demonstrado em outro gênero da literatura, apresenta no ramo que ora escolheu novas e significativas manifestações de um espírito acostumado à observação diária dos fatos, auxiliado por estimáveis faculdades de análise.
Passando do conto ao romance, concepção indiscutivelmente mais vasta e complexa, Francisca Clotilde nos deixa perceber através de sua engenhosa e fértil imaginativa, traços ideativos de uma vocação definida.
Inspirada e retratada pelo nosso meio, a auspiciosa tentativa da inteligência e operosa romancista é um estudo de costumes a que comunica vida a uma das nossas controvertidas questões civis _ o divórcio.
O enredo é tratado com carinho, e vê-se que a autora muito se esforçou por explorar todos os acidentes locais, fazendo vingar a índole da sociedade que serviu de teatro à sua produção.

 A revista “O Lyrio” de Recife, na edição de março de 1902, ao receber A Divorciada, assim se reporta,

A conhecida escritora cearense, Francisca Clotilde, teve a gentileza de oferecer-nos o seu romance - A Divorciada, que forma um belo volume de duzentas e trinta e três páginas.
A urdidura do romance é simples, mas bem travado com a concepção, corre suavemente, sem sobresalto, sem rebuscamento, despreocupado e natural.
Com esses elementos, arquitetou a simpática escritora um romance muito interessante, onde a emoção sem muito se elevar, distribui-se com arte, dando relevo às cenas e prendendo continuamente a atenção do leitor até o desenlace.
Agradecemos a oferta, felicitamos a distinta romancista.

Segundo Abelardo Montenegro, em Romance Cearense, ‘A Cidade’ – jornal que ela colabora – na cidade de Sobral, edição de 21/03/1903 elogia o romance, asseverando que é mais um magnífico estudo de observações e de fatos sociais, que um simples trabalho recreativo e fantasista. O mesmo jornal louva o estilo da romancista que qualifica de ligeiro, delicado, correto e atraente, inspirado no realismo puro. Em 1909, reside ela em Aracati, O Aracaty – órgão de imprensa local – na edição de 25.03.09, diz que o romance de Clotilde ocupa-se da momentânea e debatida questão do divórcio, tão simpatizada entre nós. Rompendo todos os preconceitos, desprezando todas as conveniências sociais, procura demonstrar a necessidade do amor no casamento, do verdadeiro amor desinteressado e eterno, espontâneo e natural.

Por décadas, não encontramos mais nenhuma notícia a respeito do referido romance. Somente em 1977 o professor e escritor Otacílio Colares em seu Lembrados e Esquecidos Vol. III, pp. 54-78.

Um novo silêncio..., e em 2000, Caterine de Sabóya Oliveira, em "Seis romances, seis visões", volta a abordar A Divorciada como um dos seis romances cearenses em destaque.

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Sem dúvida Cadinho Roco, é uma belíssima Obra. Você poderá encontrá-la no www.estantevirtual.com.br

      Anamélia Mota

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Infelizmente Anamélia Custódio Mota, não tem mais na Estante Virtual. Complicado encontrar agora.
    Felicidades!
    Iramar Miranda

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  4. NOS ANOS 70 ,LI UM LIVRO CUJO TITULO ERA A DIVORCIADA! SERIA ESSE DE FRANCISCA CLOTILDE? O QUE ME RECORDO É QUE TINHA UMA PERSONAGEM CHAMADA AURORA. FIQUEI FASCINADA , ERA LINDO O ROMANCE!

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